Ouroboros por Luckas Iohanathan.
Um Labirinto de Memórias
Prepare-se para uma experiência que vai muito além do papel. Esta HQ troca a condução tradicional por um mergulho visceral no trauma e na psicologia humana. Através de ciclos que parecem não ter saída, a obra cria uma atmosfera sufocante e provocativa. É uma leitura que incomoda da melhor forma possível: desafiando certezas e deixando um rastro de questionamentos que acompanham o leitor por muito tempo.
Em Ouroboros, acompanhamos uma narrativa fragmentada, onde tempo, memória e realidade se fundem. A história não segue uma linha reta; ela se dobra sobre si mesma, criando uma percepção constante de déjà vu.
No centro da narrativa está um protagonista marcado por sua relação complexa com a mãe. Através de fragmentos de lembranças, entendemos os julgamentos que ele carrega e as dores que moldaram sua forma de enxergar o mundo. Mas, aos poucos, a HQ revela que o passado não é algo estático, ele continua vivo, ditando escolhas, comportamentos e sabotando relações no presente.
O Ciclo e a Cegueira
A grande força de Ouroboros está em transformar um conceito abstrato em algo quase físico. A obra não é apenas sobre “cometer os mesmos erros”, mas sobre a geometria cruel do trauma:
- A Mãe como Espelho: Ela age a partir das circunstâncias brutais que a moldaram. Para ela, a sobrevivência veio antes do afeto.
- O Filho como Herdeiro: Ele age a partir das cicatrizes que essas experiências deixaram. Ele não herdou apenas o sangue, mas o DNA emocional de uma dor que não começou nele.
Existe um abismo de incompreensão entre os dois. Enquanto o filho julga os “atos” da mãe, ele é muitas vezes incapaz de enxergar as “causas”. Há uma cegueira mútua onde ambos estão tão ocupados sentindo a própria dor que não percebem que estão mordendo a cauda um do outro.
O desfecho não é apenas um ponto final; é um confronto violento com a verdade que o protagonista passou a vida tentando ignorar. É o momento em que a serpente finalmente percebe que o que ela está devorando é a si mesma.
A arte não apenas ilustra, ela aprisiona. Cada quadro que se repete com uma leve distorção cria uma espiral claustrofóbica. O autor faz com que o leitor sinta a exaustão dos personagens: o cansaço de caminhar quilômetros apenas para voltar ao ponto de partida.

Os ciclos que alimentamos
Ouroboros funciona como um espelho desconfortável para os padrões que alimentamos no ‘piloto automático’. A HQ toca na ferida ao mostrar como o trauma pode seguir dois caminhos: a luta exaustiva de quem se recusa a ser um reflexo do passado e a inércia cruel de quem usa as próprias cicatrizes como salvo-conduto para continuar ferindo.
A obra não entrega respostas fáceis. Pelo contrário, ela deixa um incômodo que permanece. Talvez seu maior acerto seja justamente este: nos forçar a olhar para dentro e questionar até que ponto estamos realmente seguindo em frente ou apenas girando em círculos.
Ouroboros não é uma leitura leve, nem pretende ser. É uma experiência simbólica, densa e provocativa, que exige atenção e abertura para interpretar o que está nas entrelinhas. É perfeita para quem busca histórias psicológicas que desafiam a lógica e tocam na alma.
E você, já sentiu que estava preso em um ciclo que não conseguia quebrar? Como você lida com as “heranças emocionais” da sua família? Me conta aqui nos comentários ou lá no Instagram @trecholivreblog.
📚 Nota:⭐⭐⭐☆ ☆ (3/5)
Ficha Técnica
- Título: Ouroboros
- Autor: Luckas Iohanathan
- Data da publicação : 15 junho 2025
- Número de páginas : 176 páginas
- Gênero: HQ / Graphic Novel / Drama Psicológico
- Editora: Comix Zone







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