Quando o país desmorona e a infância acaba: por que A face mais doce do azar é um retrato doloroso e necessário do Brasil dos anos 90.

A face mais doce do azar, de Vera Saad.

Hoje vamos conversar sobre um livro que costura política, família e fim de infância de um jeito profundamente incômodo e, ao mesmo tempo, necessário. Em A face mais doce do azar, acompanhamos a história de uma família brasileira comum tentando sobreviver à transição dos governos, num país que saía da ditadura, mas ainda carregava muitos dos seus fantasmas.

É uma leitura curta, de frases aparentemente leves, mas que deixam um gosto amargo na boca. A cada página, a gente percebe como as decisões de Brasília chegam na cozinha, no porão, no quarto das meninas e mudam tudo.

A história é narrada por Dubianca, uma pré-adolescente inteligente, curiosa e muito mais atenta do que os adultos ao seu redor imaginam. O livro se passa no início dos anos 1990, durante a transição dos governos Sarney para Collor.

A família de Dubi perde a estabilidade financeira quando o pai é demitido e todos precisam se mudar para morar com a avó paterna. Esse movimento, sair do que é seu para viver de favor, já revela muito sobre o baque que eles sofrem, tanto material quanto emocionalmente.

As coisas parecem melhorar quando o tio Arthur propõe uma parceria de trabalho ao pai de Dubianca, o que leva a família a se mudar novamente, dessa vez para o porão da casa dos tios. Mas o que poderia ser um recomeço acaba abalado de novo quando o governo Collor assume o poder e implementa medidas econômicas drásticas, como o confisco das poupanças. A fase que tinha um certo gosto de esperança volta a carregar o peso do rebaixamento.

Viver no porão se torna também uma metáfora daquilo que a política faz com a vida deles.

Ali, naquele espaço apertado e carregado de tensão, Dubi observa:

  • o desgaste da relação entre seus pais e os tios;
  • as discussões políticas que nunca chegam a lugar nenhum;
  • as pequenas e grandes violências que atravessam o cotidiano.

Dubi não é só uma menina “no seu mundinho”. Ela acompanha as conversas, lê e questiona. Um marco importante é quando o tio Arthur lhe dá um livro que faz com que ela comece a enxergar o mundo com mais clareza. A partir daí, Dubi passa a compreender não só a política do país, mas também as dinâmicas de poder e silêncio dentro da própria família.

Temas que mais me tocaram:

Política entrando pela porta da sala (e do porão)
Uma das coisas mais fortes do livro é como ele mostra, de forma muito concreta, o impacto da política na vida das pessoas comuns. Não é algo abstrato, é mudança de casa, perda de dinheiro, brigas, medo e desesperança. Os pais de Dubianca depositam uma fé enorme em Collor, acreditando que ele será a “salvação” do país. Quando vem a decepção com o confisco, o choque é brutal. É um retrato muito fiel da esperança e da desilusão política.

Adolescência roubada
Dubianca está entrando na adolescência ao mesmo tempo em que o país passa por uma fase de “recomeço” confuso. Enquanto o Brasil tenta se reorganizar, Dubi tenta entender seu lugar no mundo. Ela vê, sente e registra tudo: os silêncios, as brigas, os olhares. O que deveria ser uma fase de descobertas leves acaba marcada por traumas, perdas e desestruturação familiar.

Abuso e negligência
Além da política, o livro aborda temas muito delicados como abuso sexual e negligência familiar. Há uma sutileza na forma como a autora insere o tema, mas sem suavizar o impacto. Dubianca é “o lado mais frágil da corda”, e muitas vezes os adultos estão tão ocupados com suas próprias crises que não enxergam (ou não querem enxergar) o que está acontecendo. Isso torna a leitura ainda mais dolorosa, porque é fácil reconhecer, ali, histórias que se repetem em muitas famílias brasileiras.

Pontos positivos e negativos:

  • A narradora: Dubianca é cativante. A voz dela é “falsamente leve”, com frases curtas que deixam transparecer fissuras profundas.
  • A política no íntimo: Vera Saad mostra que não existe “não gostar de política” quando é a sua casa, a sua família e a sua saúde mental que estão em jogo.
  • A ambientação histórica: o clima dos anos 90 e a era Collor aparecem de forma muito bem contextualizada, com um fundo quase pedagógico.
  • Peso emocional constante: apesar do título falar de “doçura”, é um livro predominantemente amargo. Para alguns leitores, o tema do abuso e do desamparo pode tornar a leitura muito densa e desconfortável.

O que mais ficou ecoando em mim foi a ideia de que a política não é um pano de fundo distante. Ela atravessa a casa, o corpo e a psique das pessoas. A esperança quase ingênua dos pais de Dubianca, seguida da decepção brutal, é um espelho da fé que muita gente deposita em candidatos até hoje.

Ler esse livro é quase como levar um sacode. Ele nos lembra que, por trás de cada decisão de governo, existem famílias perdendo casas, rotinas e, muitas vezes, a própria inocência. Recomendo muito para abrir a mente; afinal, são essas pessoas que acabam, direta ou indiretamente, gerindo também a nossa vida.

E você? Já parou para pensar em como decisões políticas que parecem distantes impactaram a sua família ou a sua infância?

Se você já viveu alguma fase em que a política “invadiu” sua casa seja pelo bolso, pela violência, pela perda de direitos ou por brigas familiares. Me conta nos comentários ou lá no Instagram. Adoro quando vocês compartilham essas memórias e reflexões, porque é assim que a gente transforma leitura em diálogo vivo.

📚 Nota: ⭐️⭐️⭐️⭐️/5

Ficha Técnica

  • Título: A face mais doce do azar
  • Autora: Vera Saad
  • Editora: Claraboia Editora
  • Páginas: 136
  • Gênero: Ficção Brasileira / Drama Contemporâneo
  • Data de publicação: 27 de outubro de 2023

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